Um exemplo interessante disto que destaco foi quando o participante mais escolarizado cometeu um engano na primeira questão – após respondê-la corretamente, fez novos cálculos e emitiu uma resposta errada, que logo em seguida revogou (ao se dar conta de que a primeira era mesmo a correta). Ele disse que achava que a pergunta era um “pega”, justamente por parecer fácil e óbvia demais, e por isso se confundiu. Quando da nossa apresentação, a professora argumentou que procurar por pegas na pergunta seria a abstração por excelência – concordo com ela, mas ao avaliar a situação, e também a minha própria vivência, imagino que procurar por pegas é ao mesmo tempo abstrair e se ater a um concreto, o concreto da própria experiência. (Ex)Alunos da UnB, como o entrevistado e eu, tem treinamento em buscar pegas e armadilhas em questões de provas, estratégia esta exigida pela lógica das provas de vestibular. Dessa forma, embora requeira uma capacidade de abstração específica, nossa visão segue contaminada por nossa experiência prática passada, continuamos a procurar pega onde muitas vezes não há.
Estando certo ou errado nessa minha reflexão (isto é, se realmente existir um certo e um errado), estou seguro de que a dimensão cultural é a essência para compreender o processo de desenvolvimento e também de aprendizagem do ser humano. Creio que cada um indivíduo tem a sua própria percepção do mundo, e o conjunto de sistemas simbólicos que chamamos de cultura está entre os principais responsáveis pela formação destas distintas subjetividades. Após cada apresentação (além do nosso, houve também um seminário sobre silogismos e outro sobre percepção), a professora enfatizou a importância das estratégias de mediação utilizadas por educadores ao transmitir o conteúdo. Compreendo esse processo como uma forma de respeitar a existência das tantas subjetividades distintas dentro de uma sala de aula, mas revelo que ainda não compreendi muito bem o que é essa “mediação” e como funcionam suas estratégias; por enquanto, me limito a fazer considerações superficiais sobre as mesmas.
A professora mencionou a estratégia utilizada por educadores ao ensinar os números para alunos pré-escolares. Imediatamente lembrei-me de minha alfabetização: como cada letra tinha um personagem, uma historinha, e que nós mesmos chegamos a atuar, representar o papel dessas personagens em apresentações escolares; o “B” era o Jardineiro Barrigudo, o “C” era o Coelho que quando botava o rabinho virava o “Ç”... Compreendi (espero que corretamente), após uma série de considerações de nossa atual professora, que muitas vezes as estratégias elaboradas para transmitir o conteúdo não são retidas em si, mas ainda assim são vitais para o aprendizado. Contemplo este tema como similar ao debate sobre didática, ponto em que muitos educadores falham hoje. O importante não é divertir a turma com piadas e trocadilhos, ou usar uma infinidade de recursos áudio-visuais durante a exposição – o essencial é passar uma determinada mensagem, e o educador deve fazê-lo pelos meios mais eficientes à sua disposição.
A minha reflexão se expande inclusive para os conteúdos ministrados em sala de aula – muitas vezes o professor julga que os alunos não precisarão desta matéria, ou nunca farão uso daquela fórmula, ou mesmo jamais serão capazes de entender aquele conceito. Tal atitude, imbuída de profecias auto-realizadoras, é a verdadeira limitadora do aluno, que envenena o seu potencial e interrompe o seu desenvolvimento. Cabe ao educador oportunizar aos educandos a recepção de conceitos e conhecimentos, bem como de permitir que eles decidam por si próprios o que querem fazer com o que receberam – se desejam aceitar, transformar e utilizar, ou se preferem rejeitar a idéia e descartá-la por falta de necessidade. Imagino que é exatamente nesse sentido que o papel do professor é o de mediador do conhecimento, mas creio ser cedo para me precipitar e afirmá-lo.